A última bicicleta que tinha tido foi há imenso tempo. Foi provavelmente a mesma bicicleta com que aprendi a andar, quando era puto, e que com o tempo e desuso foi enferrujando e lá está no que era o estábulo da minha casa na "terra" (no Painho, perto das Caldas da Rainha). Sempre foi uma actividade de que gostei bastante e infelizmente estive muito tempo sem andar de bicicleta regularmente. Ia alugando uma bicicleta e dando umas voltas de vez em quando, mas não é a mesma coisa. Há uns meses decidi-me a comprar uma bicicleta e lá o fiz. Voltar a andar de bicicleta foi espectacular. Entre passeios na ciclovia de Cais-do-Sodré/Belém com amigos no fim-de-semana, e idas solitárias ao Terreiro do Paço de vez em quando, só não andei de bicicleta em semanas em que o tempo estava mau demais para isso (e mesmo assim cheguei a apanhar uma molha numa vez que arriscámos a ciclovia num dia pouco acolhedor).
Há uns Domingos atrás fui com um amigo meu dar um pulo pelo FabriCamp Lx1, no Pavilhão dos Conhecimentos no Parque das Nações. Como o Parque das Nações é um sítio fixe para se andar de bicicleta, cada um de nós levou a sua para depois darmos uma volta. Depois de um pouco de passeio fomos ao Vasco da Gama, deixámos as bicicletas no parquezinho próprio que há para bicicletas em frente à entrada que dá para a estátua ferrugenta, e fomos jantar descansados. Quando chegámos, nenhuma das nossas bicicletas estava lá. A minha corrente estava cortada no chão e a corrente (mais grossa, com código, que estava também presa à minha bicicleta) do meu amigo nem vê-la.
Durante o FabriCamp as bicicletas ficaram duas horas presas individualmente a um caixote do lixo no meio do nada, onde poucas pessoas passam. Uma hora no sítio próprio para bicicletas num local com seguranças e pessoas constantemente a passar e são roubadas. Quando fomos para fazer queixa a uma das seguranças do Vasco da Gama: "Ah, isso não é nada connosco. O melhor é irem fazer queixa à polícia para eles depois verem o vídeo de vigilância e podem ter a sorte de a câmara ter apanhado os ladrões". Um ponto engraçado desta situação é que estávamos mais preocupados com as bicicletas nas duas horas que elas estiveram presas ao caixote do lixo do que no tempo que elas estiveram presas no parque de bicicletas.
Há aqui muita coisa que me deixa indignado. Primeiro de tudo há as bestas que roubaram as bicicletas. Segundo há os seguranças do centro comercial onde fui gastar dinheiro que não só não protegeram os interesses dos seus clientes, como também nada se importaram com o sucedido. Terceiro há a minha estupidez em não me aperceber do quão mau o sítio era na realidade para deixar uma bicicleta relativamente nova.
Há que dizer que tanto eu como o meu amigo fomos levados por um falso sentido de segurança. O sítio parecia adequadamente perto do Vasco da Gama para deixarmos as bicicletas. Assumimos que haveria alguma segurança no movimento constante de pessoas, que ninguém ia roubar bicicletas abertamente num sítio por onde está constantemente a passar gente. Assumimos que haveriam seguranças a passear por aquela zona. Se não tivéssemos assumido isto tudo e determinado que era um lugar perigoso para deixar as bicicletas, tínhamos ido embora para casa em vez de jantar no Vasco da Gama e ainda tínhamos as nossas bicicletas.
Em retrospectiva é óbvio porque é que uma hora ali no sítio próprio para bicicletas em frente ao Vasco da Gama foi mais perigoso para as bicicletas do que duas horas num sítio onde não passa ninguém, presas a um caixote do lixo frágil. Em ambos os sítios onde deixámos as bicicletas apenas as protegemos contra o gajo que vê uma bicicleta, pega nela e leva-a consigo. Para levar as bicicletas era preciso conseguir cortar as correntes e o transeunte que se depara com as bicicletas por acaso não anda com um alicate de corte no bolso para estas situações. Por outro lado, haver um sítio fixo onde as pessoas se sentem seguras para deixar as bicicletas delas, sem seguranças, abre portas a que pessoas mal intencionadas e melhor equipadas passem por lá com um alicate de corte, analisem se há alguma bicicleta que valha a pena roubar (mal protegida/relativamente boa), e pronto... Alguém fica sem bicicleta. Aparentemente isto é algo que acontece todas as semanas, segundo os polícias.
Acho que é uma falha enorme do Vasco da Gama providenciar aquele sítio onde se pode simplesmente ir roubar bicicletas. Em vez de estarem a oferecer aos seus clientes um sitio seguro onde deixar as bicicletas, estão a dar-lhes um falso sentido de segurança e a fazer com que mais bicicletas sejam roubadas, perdendo clientes. Eu, por exemplo, já sei que não vou jantar no Vasco da Gama depois de ir andar de bicicleta no Parque das Nações. Questiono-me porque é que não há um segurança ao pé do parque de bicicletas. Questiono-me porque é que as rondas da polícia não passam por lá com frequência o suficiente para desincentivar ladrões. Questiono-me porque é que, não havendo recursos humanos para impedir o roubo, não se tira aquele parque dali para não haver pessoas a deixar lá bicicletas que podem ser roubadas.
E assim, cerca de dois meses depois de a comprar, fiquei sem a minha bicicleta nova. Restam-me duas opções: baixar os braços e desistir de ter uma bicicleta, ou não deixar que um grupo de anormais me roube o prazer readquirido de andar de bicicleta. A escolha parece bastante simples, vou comprar uma bicicleta para substituir a que perdi e desta vez vou também comprar material para a prender que não só dê protecção contra o transeunte ocasional mas que também ofereça alguma segurança contra alicates de corte de tamanhos não industriais. E também vou ter bastante mais cuidado onde deixo a bicicleta e assegurar-me que o que assumo de segurança parece mais sólido.
O pior de tudo é que ainda há um outro grupo de idiotas que nada faz de concreto para impedir estas situações. Talvez o número de clientes que lá vai porque tem o parque para as bicicletas ainda compense financeiramente relativamente ao número de clientes que perdem porque permitiram que lhes roubassem as bicicletas. Eu acho inaceitável e por isso podem contar que não gastarei mais do meu dinheiro no Centro Comercial do Vasco da Gama enquanto este tipo de negligência existir.
Quase que sinto que fui directamente lesado pela administração do Vasco da Gama e que os devia responsabilizar legalmente pelo sucedido (talvez processando-os?). Vou tentar averiguar com pessoas mais conhecedoras da lei se teria hipótese ou se estas corporações são protegidas contra este tipo de negligência grosseira e danosa.
Sem garantia de divertimento, inteligência, regularidade, coerência ou até legibilidade.
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14 de abril de 2011
10 de março de 2011
A sério que não quero saber
Hoje queria usar uma folha de cálculo e como a licença temporária do Microsoft Office que vinha com o meu portátil deve estar quase a acabar*, decidi sacar o Libre Office, uma versão bastarda do Open Office feita por alguns tipos que não gostaram muito da passagem de mãos para a Oracle.
A página de download é engraçada. Não sei porquê alguém achou que sacar o código fonte para criar o próprio instalador é um caso de uso suficientemente importante para estar (quase) logo abaixo do download da versão que quero. Mais importante ainda do sacar o SDK para fazer as minhas alterações (já que está por cima desse). Acho que alguém tem de lhes dizer que não há aí muitas pessoas a quererem sacar o código fonte só para compilar e fazer um instalador personalizado quando, em princípio, o resultado final é igualzinho a usar o instalador dos binários. Talvez o caso de uso seja um pouco diferente do que a ligação dá a sugerir, mas prontos.
Também nessa página (e isto só reparei agora que a estou a revisitar) os temos a pedir desculpa se a "combo-box" não tiver logo o sistema operativo certo. Que idiotas... mais valia ficarem caladinhos. Imagino que aquele texto seja precisamente o contrário: o que eles estão a fazer é a gabarem-se que têm um sistema automático para detectar o sistema operativo e querem salientar essa funcionalidade. Mas como às vezes falha já se estão a desculpar. Se não quisessem ser chico-espertos não precisavam de dar a saber que a funcionalidade às vezes falhava. Se não dissessem nada, silenciosamente melhoravam a experiência do utilizador sem darem mau aspecto. Detecção do sistema operativo não é nada de tão difícil que se valha a pena gabar-se, e se não se conseguir detectar deixa-se o valor escolhido no sistema operativo mais usado que também ninguém havia de refilar se afinal falhassem.
Mas a cena mais espectacular da experiência toda ainda foi durante a instalação:
Lendo com atenção, não me estão a perguntar onde quero que o Libre Office vá parar, estão a perguntar onde quero que ponham os ficheiros temporários de instalação. Ora aí está algo que nem sequer quero saber, não percebo por que raio me estão a perguntar isto. Ponham-nos onde quiserem, num canto refundido qualquer que nunca mais vou visitar e que normalmente é apagado automaticamente, como o directório de ficheiros temporários do Windows. Se for, sem perguntar nada a ninguém, para um sítio desses como tantos outros programas fazem ao se instalarem, não me chocava nada. A única razão válida para me perguntarem uma coisa destas seria eu ter o controlo de onde os ficheiros vão parar para se tiver falta de espaço em disco saber onde estão. Há soluções melhores para este problema (que em princípio nem sequer é assim tão problemático) e nenhuma envolve perguntar-me onde quero que descompactem os ficheiros do instalador: podiam, como já disse, meter os ficheiros automaticamente numa directoria de ficheiros temporários. Podiam, se se preocupam assim tanto com o espaço que ocupam, simplesmente apagar os ficheiros como passo final do instalador.
Mas não. Escolheram perguntar-me onde quero descompactar os ficheiros do instalador. Já tinha ouvido falar no termo "smart defaults" para melhor agradar o utilizador e ele ter de mexer o menos possível nas configurações obrigatórias, mas a sugestão que eles dão como localização dos ficheiros de instalação é do melhor. Então quem é que não quereria ficheiros temporários no seu ambiente de trabalho? Isto já está tão limpinho e arrumadinho, só faltava mesmo era um directório chamado "Libre Office 3.3 (letras aleatórias) Instalation Files". Está-se mesmo a ver que é um directório que iria usar com uma frequência desgraçada depois de instalar o Libre Office.
Bem ... ao menos ficou num sítio onde é relativamente fácil seleccionar e apagar.
Na tab de "Get Involved", um dos perfis de programadores que precisam é de User Experience e Visual Designer. Têm razão. E precisam tão desesperadamente que fazem coisas completamente idióticas para chamar a atenção a esse facto.
Quando encontrar o botão de "Submit Feedback", podem crer que farei uso dele.
* Para além de ser profundamente irritante aparecer uma janela enorme para me dizer que só posso abrir o Office mais uma dúzia de vezes e a perguntar se não quero dar um balúrdio do dinheiro pelo privilégio de o poder abrir as vezes que quiser.
A página de download é engraçada. Não sei porquê alguém achou que sacar o código fonte para criar o próprio instalador é um caso de uso suficientemente importante para estar (quase) logo abaixo do download da versão que quero. Mais importante ainda do sacar o SDK para fazer as minhas alterações (já que está por cima desse). Acho que alguém tem de lhes dizer que não há aí muitas pessoas a quererem sacar o código fonte só para compilar e fazer um instalador personalizado quando, em princípio, o resultado final é igualzinho a usar o instalador dos binários. Talvez o caso de uso seja um pouco diferente do que a ligação dá a sugerir, mas prontos.
Também nessa página (e isto só reparei agora que a estou a revisitar) os temos a pedir desculpa se a "combo-box" não tiver logo o sistema operativo certo. Que idiotas... mais valia ficarem caladinhos. Imagino que aquele texto seja precisamente o contrário: o que eles estão a fazer é a gabarem-se que têm um sistema automático para detectar o sistema operativo e querem salientar essa funcionalidade. Mas como às vezes falha já se estão a desculpar. Se não quisessem ser chico-espertos não precisavam de dar a saber que a funcionalidade às vezes falhava. Se não dissessem nada, silenciosamente melhoravam a experiência do utilizador sem darem mau aspecto. Detecção do sistema operativo não é nada de tão difícil que se valha a pena gabar-se, e se não se conseguir detectar deixa-se o valor escolhido no sistema operativo mais usado que também ninguém havia de refilar se afinal falhassem.
Mas a cena mais espectacular da experiência toda ainda foi durante a instalação:
Lendo com atenção, não me estão a perguntar onde quero que o Libre Office vá parar, estão a perguntar onde quero que ponham os ficheiros temporários de instalação. Ora aí está algo que nem sequer quero saber, não percebo por que raio me estão a perguntar isto. Ponham-nos onde quiserem, num canto refundido qualquer que nunca mais vou visitar e que normalmente é apagado automaticamente, como o directório de ficheiros temporários do Windows. Se for, sem perguntar nada a ninguém, para um sítio desses como tantos outros programas fazem ao se instalarem, não me chocava nada. A única razão válida para me perguntarem uma coisa destas seria eu ter o controlo de onde os ficheiros vão parar para se tiver falta de espaço em disco saber onde estão. Há soluções melhores para este problema (que em princípio nem sequer é assim tão problemático) e nenhuma envolve perguntar-me onde quero que descompactem os ficheiros do instalador: podiam, como já disse, meter os ficheiros automaticamente numa directoria de ficheiros temporários. Podiam, se se preocupam assim tanto com o espaço que ocupam, simplesmente apagar os ficheiros como passo final do instalador.
Mas não. Escolheram perguntar-me onde quero descompactar os ficheiros do instalador. Já tinha ouvido falar no termo "smart defaults" para melhor agradar o utilizador e ele ter de mexer o menos possível nas configurações obrigatórias, mas a sugestão que eles dão como localização dos ficheiros de instalação é do melhor. Então quem é que não quereria ficheiros temporários no seu ambiente de trabalho? Isto já está tão limpinho e arrumadinho, só faltava mesmo era um directório chamado "Libre Office 3.3 (letras aleatórias) Instalation Files". Está-se mesmo a ver que é um directório que iria usar com uma frequência desgraçada depois de instalar o Libre Office.
Bem ... ao menos ficou num sítio onde é relativamente fácil seleccionar e apagar.
Na tab de "Get Involved", um dos perfis de programadores que precisam é de User Experience e Visual Designer. Têm razão. E precisam tão desesperadamente que fazem coisas completamente idióticas para chamar a atenção a esse facto.
Quando encontrar o botão de "Submit Feedback", podem crer que farei uso dele.
* Para além de ser profundamente irritante aparecer uma janela enorme para me dizer que só posso abrir o Office mais uma dúzia de vezes e a perguntar se não quero dar um balúrdio do dinheiro pelo privilégio de o poder abrir as vezes que quiser.
18 de novembro de 2010
Validade dos jogos de Futebol
Eu tenho uma teoria: as pessoas não gostam mesmo de ver jogos de futebol. Apenas gostam de saber o resultado em tempo real.
PROVA*: Imaginemos que as pessoas gostam de facto de ver o desenrolar de um jogo de futebol.
Desta hipótese, concluir-se-ia que as pessoas fariam questão de ver o jogo do inicio ao fim, como quem gosta de ver um filme, sem interrupções. Mais, não importaria a altura em que se vê o jogo. Podia ver o jogo no dia em que ocorre, no dia a seguir, ou daí a uma semana, um mês ou mesmo depois de anos. O valor de entertenimento do jogo seria exactamente como o valor de entretenimento de um filme, eterno.
No entanto, não só as pessoas aceitam cortar partes do jogo desde que possam seguir o resultado em tempo real (como por exemplo, quando estão a sair com amigos), como nunca vi nenhum exemplo de pessoas que fossem capazes de perder o jogo, gravá-lo e vê-lo mais tarde. Prova deste comportamento deviante são os jogos da selecção durante o Mundial, em que o país literalmente parava para que as pessoas pudessem tirar o tempo dos seus trabalhos para verem o jogo em directo.
Portanto pode-se concluir que os adeptos de futebol não gostam, de facto, de ver jogos de futebol, tornando a hipótese absurda. QED
* como é uma prova a ver com futebol, terá necessariamente de ser por absurdo.
PROVA*: Imaginemos que as pessoas gostam de facto de ver o desenrolar de um jogo de futebol.
Desta hipótese, concluir-se-ia que as pessoas fariam questão de ver o jogo do inicio ao fim, como quem gosta de ver um filme, sem interrupções. Mais, não importaria a altura em que se vê o jogo. Podia ver o jogo no dia em que ocorre, no dia a seguir, ou daí a uma semana, um mês ou mesmo depois de anos. O valor de entertenimento do jogo seria exactamente como o valor de entretenimento de um filme, eterno.
No entanto, não só as pessoas aceitam cortar partes do jogo desde que possam seguir o resultado em tempo real (como por exemplo, quando estão a sair com amigos), como nunca vi nenhum exemplo de pessoas que fossem capazes de perder o jogo, gravá-lo e vê-lo mais tarde. Prova deste comportamento deviante são os jogos da selecção durante o Mundial, em que o país literalmente parava para que as pessoas pudessem tirar o tempo dos seus trabalhos para verem o jogo em directo.
Portanto pode-se concluir que os adeptos de futebol não gostam, de facto, de ver jogos de futebol, tornando a hipótese absurda. QED
* como é uma prova a ver com futebol, terá necessariamente de ser por absurdo.
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